Dra. Michele FerreiraCRBM-SP 73936

Gerenciamento de Melasma

Protetor solar para melasma: qual FPS, por que com cor e quanto passar

Por Dra. Michele Ferreira, biomédica esteta, CRBM-SP 73936 · · 11 min de leitura

Resumo rápido

  • Para melasma, o Consenso Brasileiro de Fotoproteção recomenda protetor de FPS alto (de preferência acima de 50), com proteção UVA elevada e, sempre que possível, com cor.
  • O FPS mede proteção contra queimadura (UVB), não contra luz visível. Quem protege da luz visível são os pigmentos do protetor com cor, como o óxido de ferro, e o vidro comum da janela deixa passar mais de 90% dessa luz.
  • A quantidade faz diferença: cerca de 1 colher de chá no rosto (o comprimento de dois dedos), com reaplicação a cada 2 horas; maquiagem com FPS só conta se for reaplicada no mesmo ritmo.

Para melasma, o protetor solar mais indicado é o de amplo espectro (UVA e UVB), com FPS alto, de preferência acima de 50, e com cor. É o que recomenda o Consenso Brasileiro de Fotoproteção, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). A cor não é só estética: os pigmentos da base, como o óxido de ferro, ajudam a barrar a luz visível, que também escurece o melasma. E tão importante quanto a escolha é a dose: cerca de 1 colher de chá no rosto, reaplicada a cada 2 horas.

Por que o melasma escurece mesmo longe do sol forte?

O melasma é uma mancha crônica que responde a vários estímulos, e a luz é um dos principais. Por muito tempo a atenção ficou só na radiação ultravioleta (UV), mas a luz visível, a mesma que enxergamos, também pigmenta a pele.

Um estudo publicado em 2010 no Journal of Investigative Dermatology irradiou a pele de 20 voluntários de fototipos IV a VI com UVA1 (a faixa mais longa do ultravioleta A) e com luz visível. As duas pigmentaram, mas a pigmentação causada pela luz visível foi mais escura e durou mais. O mesmo teste, feito à parte em pele de fototipo II, não causou pigmentação. Em outras palavras: em peles com mais melanina, bloquear só o UV deixa uma parte da luz que mancha passar.

O FPS protege contra a luz visível?

Não. O FPS (fator de proteção solar) é uma medida de proteção contra a queimadura, que vem essencialmente da radiação UVB. Ele não mede proteção contra UVA nem contra luz visível. O Consenso da SBD cita um estudo de 2012 que avaliou protetores brancos e com cor e concluiu que o valor do FPS não tem relação direta com a proteção contra luz visível: o que pesa é a translucidez do produto.

Uma revisão sobre protetores com cor, publicada no Journal of the American Academy of Dermatology, resume assim: para proteger contra a luz visível, o protetor precisa ser visível na pele. Os filtros minerais (óxido de zinco e dióxido de titânio), quando usados em nanopartículas para não deixar a pele branca, não fazem esse papel. Quem faz são os pigmentos, principalmente óxidos de ferro e dióxido de titânio pigmentar. Combinando esses pigmentos em proporções diferentes, os fabricantes chegam a vários tons, para todos os fototipos.

Isso responde à dúvida entre filtro mineral e químico. O Consenso explica que os filtros que protegem contra a luz visível agem por reflexão e deixam a pele esbranquiçada, por isso os fabricantes usam pigmentos, que dão ao produto aparência de base. Para melasma, a pergunta útil não é "mineral ou químico", e sim "tem cor ou não tem".

Protetor com cor funciona mesmo para melasma?

Três ensaios clínicos randomizados apontam que sim, como parte do cuidado, e não como tratamento isolado.

EstudoQuem participouO que comparouO que encontrou
Castanedo-Cazares e colaboradores, México (2014)68 pacientes com melasma (61 concluíram), por 8 semanasProtetor FPS 50 ou mais com óxido de ferro contra protetor FPS 50 ou mais só com proteção UV; todos usando hidroquinona 4%O grupo do protetor com óxido de ferro melhorou 15% a mais no índice de gravidade (MASI), 28% a mais na medida de cor da pele e 4% a mais na melanina medida em biópsia
Boukari e colaboradores, França (2015)40 pacientes com melasma, fototipos III a V, por 6 meses, na primavera e no verãoMesmos filtros UV, com e sem óxidos de ferro (protetor com cor)O índice MASI subiu mais no grupo sem óxido de ferro, ou seja, a mancha voltou mais em quem não tinha proteção contra luz visível
Polena e colaboradores, França (2025)42 mulheres com melasma, fototipos III e IV (41 concluíram), por 5 meses no verãoProtetor com cor (óxidos de ferro e dióxido de titânio pigmentar) contra protetor sem cor com proteção UV parecida, pelo menos 2 vezes ao diaOs dois grupos seguraram a mancha e o índice de gravidade caiu nos dois, sem diferença entre eles; só no grupo com cor caiu a diferença de tom entre a pele com melasma e a pele ao redor

Alguns detalhes importam na leitura. No estudo mexicano, todas as pacientes usavam hidroquinona 4% como clareador; o que mudou entre os grupos foi só o protetor. O protetor com cor fez o tratamento render mais, não o substituiu. (Se você usa hidroquinona por conta própria, vale ler sobre o risco de ocronose com o uso prolongado.) No estudo francês de 2015, a análise do próprio produto mostrou que o protetor com cor protegia só parcialmente nas faixas de luz visível avaliadas. E o estudo de 2025 é pequeno e teve autores ligados ao fabricante do produto testado. Protetor com cor ajuda, mas não é uma barreira total.

Qual FPS usar para melasma?

O Consenso Brasileiro de Fotoproteção lista as características do protetor para quem tem melasma:

  • FPS alto, de preferência acima de 50;
  • proteção UVA proporcionalmente elevada;
  • com cor, sempre que possível, em forma de base ou creme compacto;
  • proteção na faixa da luz visível.

A lógica do FPS alto aparece no próprio documento: um produto FPS 30 deixa passar o dobro da radiação de um FPS 60. Mas nenhum número compensa aplicar pouco, e na prática quase todo mundo aplica menos do que o teste usa.

Como escolher o tom e a textura do protetor com cor?

Escolha o tom mais próximo da sua pele. A Academia Americana de Dermatologia (AAD) observa que o protetor com cor ajustado ao tom de cada pessoa se mistura melhor à pele, e isso aumenta a chance de ele ser usado todos os dias.

Um cuidado com o rótulo: a quantidade de óxido de ferro quase nunca aparece. Numa análise de 37 protetores com cor publicada em 2026, 97,3% não listavam o óxido de ferro como ingrediente ativo, e só 9,6% das marcas que responderam informaram a porcentagem (entre menos de 1,4% e 10,4%). Como a proteção vem do pigmento visível na pele (revisão do JAAD), um protetor com cor quase transparente tende a proteger menos.

O que o Consenso da SBD e a AAD dizem de cada textura:

FormatoPara que serve melhorLimite
Fluido ou cremeCamada principal da manhã, no rosto todoPrecisa da quantidade certa para chegar ao FPS do rótulo
BastãoÁreas pequenas: lábios, dorso do nariz, ao redor dos olhos; resiste bem à águaCobrir o rosto inteiro só com bastão é difícil; a AAD orienta 4 passadas de ida e volta em cada área e espalhar depois
SprayReforço na reaplicaçãoO Consenso aponta dificuldade de medir a quantidade e distribuição irregular; no rosto, a AAD orienta borrifar nas mãos e depois aplicar
Pó compacto e base com FPSUniformizar a cor e tirar o brilho, além de proteger do solNão encontramos estudo que meça quanto pó é preciso para chegar ao FPS do rótulo; não substitui a camada da manhã

Quanto protetor passar no rosto?

A quantidade usada nos testes que definem o FPS é de 2 mg por cm² de pele. Na prática, as pessoas aplicam bem menos, e a proteção real cai de forma expressiva. Para chegar perto do ideal, o Consenso sugere duas estratégias:

  • regra da colher de chá: 1 colher de chá para a cabeça e o pescoço (rosto incluído) e 1 para cada braço; 2 para o tronco, 2 para as costas e 2 para cada perna;
  • duas camadas: aplicar do jeito de sempre e, logo em seguida, uma segunda camada, o que dobra a quantidade.

A AAD dá uma referência visual para o rosto: pelo menos 1 colher de chá, mais ou menos o que cobre o comprimento dos dedos indicador e médio. É daí que vem a famosa "regra dos dois dedos". A primeira aplicação deve ser feita pelo menos 15 minutos antes de sair, a não ser que o fabricante informe proteção imediata.

De quanto em quanto tempo reaplicar o protetor?

A recomendação geral da SBD é reaplicar a cada 2 horas ou depois de longos períodos na água. Intervalos diferentes só valem se o fabricante tiver comprovado em teste específico. Para melasma, a orientação de reaplicação é a mesma; o desafio é cumprir. Numa pesquisa citada no Consenso, só 48,2% das pacientes com melasma reaplicavam o protetor ao longo do dia, e muitas se expunham ao sol entre 11h e 16h.

Por isso o Consenso também recomenda medidas físicas como parte da prescrição: chapéu, óculos escuros e roupas adequadas. Elas ampliam a proteção nos momentos em que não dá para fugir do sol, como no trajeto ou no trabalho.

Como reaplicar o protetor por cima da maquiagem?

A ordem recomendada pela AAD é: produtos de cuidado primeiro, protetor solar depois e maquiagem por cima. Sobre a maquiagem com FPS, a AAD é direta: para contar como proteção, ela precisaria ter FPS 30 ou mais e ser reaplicada a cada 2 horas.

Para reaplicar sem desmanchar a maquiagem, os formatos da tabela acima ajudam: spray borrifado nas mãos, bastão nas áreas que mais pegam sol ou o próprio protetor com cor fluido por cima, que também faz papel de base. Não encontramos estudo comparando esses jeitos de reaplicar. Se quiser montar a rotina completa, veja como cuidar do melasma em casa.

Precisa de protetor em dia nublado e dentro de casa?

Em dia nublado, sim. Segundo o Consenso da SBD, nuvens densas de tempestade quase bloqueiam o UV, mas nuvens finas bloqueiam só uma parte, e algumas chegam a aumentá-lo por curtos períodos. A AAD resume que até 80% dos raios UV atravessam as nuvens.

Dentro de casa, depende de onde você fica. O vidro comum da janela barra o UVB, mas deixa passar parte do UVA e a luz visível (Tuchinda e colaboradores, 2006); segundo o Consenso, o vidro transparente deixa passar mais de 90% da luz visível. Longe das janelas, as lâmpadas comuns não emitem UV relevante.

Onde você estáO que chega à peleO que fazer
Ao ar livre, com sol ou nubladoUVB, UVA e luz visível; nuvens reduzem o UV de forma variávelProtetor com cor, reaplicação a cada 2 horas, chapéu e sombra
Perto de janela de vidro comum ou no carroUVB praticamente barrado; parte do UVA passa (num teste britânico com vidros de carro, 62,8% no vidro transparente não laminado); mais de 90% da luz visívelProtetor com cor pela manhã, mesmo em casa ou no carro

O Consenso ressalva que a luz visível das lâmpadas pode afetar quem tem melasma, a depender da intensidade e da frequência. Não achamos estudo que meça quanto a luz da janela, sozinha, piora o melasma: a recomendação é uma precaução.

A luz do celular e do computador piora o melasma?

Pelo que se sabe, provavelmente não, mas a evidência é fraca. Um estudo francês de 2020 concluiu que a exposição de curto prazo à luz azul das telas não piorou o melasma. Uma revisão sistemática de 2023 sobre luz azul de aparelhos eletrônicos e pele encontrou só 9 estudos (6 em laboratório e 3 em pessoas). A revisão não identificou a luz das telas como risco para pigmentação ou piora do melasma, mas os próprios autores classificaram a confiança como baixa e pediram estudos maiores.

Na prática, não há prova de que um protetor "anti luz azul" faça diferença para o melasma. A luz do sol, direta ou pela janela, continua sendo o que mais pesa.

Quais erros mais atrapalham a proteção do melasma?

Erro comumPor que atrapalhaComo fazer
Usar protetor sem cor achando que o FPS alto bastaO FPS mede proteção contra UVB; a luz visível passa (Consenso da SBD e revisão do JAAD)Preferir protetor com cor, com FPS acima de 50 e proteção UVA alta
Passar uma camada finaO FPS do rótulo é medido com 2 mg por cm²; com menos produto, a proteção real cai1 colher de chá no rosto (dois dedos) ou duas camadas seguidas
Aplicar só de manhãA proteção não dura o dia todo: a SBD orienta reaplicar a cada 2 horas, e a AAD, também logo depois de suarLevar um protetor com cor, bastão ou spray para reaplicar
Contar só com a base ou o pó com FPSSó funciona com FPS 30 ou mais e reaplicação a cada 2 horas (AAD)Protetor por baixo; maquiagem com FPS como reforço

Protetor solar resolve o melasma sozinho?

Não. Para o Consenso da SBD, a fotoproteção é fundamental no tratamento e na prevenção do melasma, mas ela é a base, não o tratamento inteiro. O melasma é crônico e tende a voltar, então o protetor trabalha junto com o clareamento e a manutenção.

O protocolo de melasma da Dra. Michele tem 6 etapas (avaliação, análise de histórico, preparo da pele, peeling personalizado, home care e acompanhamento), com 3 sessões presenciais e sem hidroquinona. Se a sua dúvida é sobre outros tipos de mancha, veja a página de tratamento de manchas. Ela atende em 10 unidades em São Paulo e Santo André e também online: escolha a unidade mais perto de você e marque uma avaliação individual.

Ficou com dúvida sobre a sua pele?

Toda indicação começa pela avaliação individual. Segunda a sábado, em horário comercial, somente com hora marcada.

Perguntas frequentes

Protetor solar sem cor serve para quem tem melasma?

Serve contra UVA e UVB, mas deixa passar boa parte da luz visível, que também escurece o melasma. Num ensaio de 2025 com 42 pacientes, os dois tipos seguraram a mancha no verão, mas só o com cor reduziu o contraste entre a pele manchada e a pele ao redor.

Preciso passar protetor mesmo ficando em casa?

Se você passa tempo perto de janelas, sim. O vidro comum barra o UVB, mas deixa passar parte do UVA e mais de 90% da luz visível; longe das janelas, com luz de lâmpada e telas, a exposição é muito menor.

Maquiagem com FPS substitui o protetor solar?

Na prática, não. A Academia Americana de Dermatologia explica que ela só protege se tiver FPS 30 ou mais e for reaplicada a cada 2 horas; por isso a orientação é passar o protetor por baixo da maquiagem.

Protetor em pó ou spray serve para reaplicar?

Serve como reforço, não como a camada principal. O Consenso da SBD considera difícil medir quanto spray fica na pele e o indica para complementar um protetor em creme, gel ou fluido na reaplicação; para o pó, não encontramos estudo que meça a dose necessária.

Protetor solar com cor clareia o melasma?

Não clareia sozinho. Nos estudos, ele fez o clareador render mais, ajudou a segurar a mancha e deixou a cor mais uniforme, mas funciona junto com um protocolo de clareamento e manutenção definido na avaliação individual.

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